
Naquela tarde, ao chegar em casa, Bento nem sequer falou com alguém da sua família, ficou por horas em seu quarto olhando para aquela medalha. Não era uma medalha comum, como aquelas que vendem nas lojas das igrejas e que muitos usam penduradas no pescoço. Ela tinha o mesmo brilho da luz do seu sonho, mas ainda temia ser coisa da sua cabeça.
Depois de um tempo, teve uma ideia. Pegou um cordão antigo que tinha, colocou a sua medalha nele e pendurou no pescoço, queria que as pessoas vissem e comentassem sobre o brilho de sua medalha para ter certeza de que não era apenas a sua visão.
Era hora do jantar, sua mãe o havia chamado e junto a seus irmãos para se sentarem à mesa, era a hora de comprovar se o brilho da medalha era real. Arrumou rapidamente o seu quarto e foi logo à sala. Com a pressa, esbarrou em sua irmã ao sair do quarto.
— Para quê essa pressa? A comida não vai fugir. — Brincou a sua irmã.
Bento se desculpou e sentou-se à mesa antes de todos. Após alguns instantes, todos chegaram. Fizeram a oração antes da refeição como de costume, mas ninguém comentou nada de diferente. Após algum tempo, ele ficara incomodado e perguntou qualquer coisa aleatória para que olhassem para ele:
— De quem é aquele livro de São Bento na estante? Nunca o vi aqui antes.
Seu pai ficou olhando para ele sem saber o que responder. Bento pensou que seu pai havia reparado na medalha por conta do seu silêncio.
— Livro de São Bento? — Seu pai perguntou quase gaguejando.
Seu pai tentou desconversar falando que queria ver o livro para poder responder, mas que faria isso depois do jantar. Aquele livro não deveria estar na estante, era parte de uma surpresa que faria. Mas Bento ainda estava pensando em uma forma das pessoas da sua família enxergarem o brilho da medalha e lançou outra pergunta aleatória:
— Mãe, o seu escapulário é novo? Parece diferente. Eu também estou precisando de um novo.
— Não é novo, deve ser só impressão. — Respondeu ela sem muito entender. — Mas depois podemos comprar outro para você.
Os planos de Bento não estavam dando certo. Parecia que ninguém concentrava o olhar na sua medalha. Então ele decidiu ser direto:
— O que acharam da minha medalha?
Todos olharam, fizeram um breve silêncio procurando realmente ver a medalha e em seguida questionaram quase que ao mesmo tempo:
— Que medalha?
Bento olhou rapidamente para o seu pescoço e, para sua surpresa, a medalha não estava lá. Ele ficou desesperado, não conseguiu nem terminar o seu jantar. Começou a procurar em seu quarto e não achou. Lembrou que havia esbarrado em sua irmã ao sair do quarto, então procurou naquele lugar por minutos, mas nada encontrou.
Algum tempo depois todos foram ajudar a procurar, mesmo sem saber muitos detalhes da medalha, pois ele só havia comentado que era redonda e brilhava. Aos poucos, um de cada vez ia desistindo de procurar. Bento ainda insistiu mais um pouco, mas também desistiu. O cansaço havia chegado, então se preparou para dormir.
— Amanhã é seu último dia de aula, vai descansar. — Disse sua mãe. — Irei arrumar a casa amanhã e procuro melhor para você.
Bento, em silêncio, foi dormir. O cansaço não permitiu que ele pensasse muito no ocorrido.
