Um olhar sobre o valor da poesia na sociedade contemporânea

Se perguntarmos ao poeta Ferreira Gullar: – Poesia para quê? Certamente ele nos dirá: – Para tornar o mundo habitável.  A poesia é uma expressão artística como o são a  pintura, a escultura, a música, e outras, extremamente importante para estabelecer esta conexão homem-mundo.  Seria também uma forma de “namoro”, uma espécie de romance, do homem consigo mesmo, com os outros,  com o mundo e com tudo o que está à sua volta. Algo que, contempla os sentimentos e as emoções a partir de si mesmo, mas caminha na direção do que está fora para elaborar uma síntese que reintegra formas variadas de ver e sentir e re-significar a vida.

Cada vez mais o homem contemporâneo se lança à construção de um mundo de funções e consumo onde tudo já está pré-estabelecido.  Zaidsznajder (1994) afirma que o homem pós-moderno se distancia de si mesmo, à medida que o mundo à sua volta se torna mais turbulento e sua vida mais fragmentada. Impulsionado pelas grandes transformações que ocorreram nos últimos 100 anos, o homem de hoje, orienta suas ações pelas duas grandes forças que regem a vida contemporânea: o estratégico e o tecnológico.   Martin Heidegger, filósofo alemão, denuncia em toda a sua obra a grande inversão de valores no que se refere ao conceito sujeito e objeto. Segundo ele, na busca desenfreada de auto asseguramento, o homem diminui toda a profundidade do seu pensamento e foge da vitalidade criativa.   Segundo Heidegger (1973), a história do homem contemporâneo é a história do esquecimento do ser  e para re-encontrar o caminho de volta é preciso compreender que pensar se compõe  com sentir, e  assim:

…pensar não exclui, antes inclui o ser. Pensar também não nega o agir, antes o afirma. Pensamento não é algo acima ou contrário ao corpo, é o corpo na própria raiz da materialidade e mais, é expor-se ao mistério da realidade, é uma conversão radical de todo o nosso modo de ser para sua própria essência de maneira a poder regressar até a fonte de sua tensão e unidade… Sendo que o pensamento verdadeiramente reflexivo seria o pensamento poético.

O  poético seria então o processo que permitiria a existência da liberdade criativa, possibilitando um avanço para o novo ou para morte que trás em seu bojo sempre a idéia de renascer.

A poesia, conforme Heidegger ( 1973) tem sua origem no dizer que não pode ser entendido somente como instrumento de comunicação, diz respeito muito mais a consciência do indivíduo: “ solo hay conciencia em cuanto existe la possibilidad del habla y, por lo tanto, de crear el language”.

É no fazer-se linguagem do ser que a poesia conduz o homem a si mesmo e o mundo vem ao homem. Desta forma, a poesia pode ser entendida como uma forma de comunicação que vai desvelando o ser, conforme Merquior ( 1965):

…na própria linguagem reside uma vontade ordenadora, uma disciplina da emoção. De modo que, se a linguagem pode ser utilizada para comunicar emoções talvez mais fielmente ainda possa ser instrumento de comunicar a atividade ordenadora do espírito.

Soares (1989) referindo-se a Aristóteles diz que “ a ênfase na diferença entre o mundo empírico e a realidade da arte leva o filósofo a valorizar o trabalho poético e a se voltar para o estudo de seus modos de constituição, a fim de determinar as diferentes modalidades ou gêneros de poesia”.  Assim, ainda em Soares encontra-se uma referência a Romam Jakobson, e sua teoria da hierarquização das funções da linguagem poética sobre as demais.

Para Bosi (1977) a poesia seria o discurso, flexionando-se para apanhar a figura da vida e embora a expressão poética seja irredutível à palavra, não obstante, só a palavra a exprime.

A poesia, imagem mental ou inscrita possui com o invisível uma dupla relação. O objeto aparece à visão, entrega-se enquanto aparência e depois, com a reprodução desta aparência, pode ligar universos subjetivos que seriam como desenhos, ícones, estátuas – estatutos de transcendências.

Existe um estado de quase matéria, de sedimento, colocado no espaço das percepções. Mesmo sendo o imaginário construído, como no caso do poema, resulta de um complicado processo de organização perceptiva.  Por isso, Bosi (1977) afirma que o movimento que conduz à forma, e aos caracteres simétrico/assimétrico, regular/irregular, simples/complexo, claro/escuro, das imagens depende da situação de equilíbrio – ou não- de forças óticas e psíquicas que interagem em um dado campo perceptual.

Poderíamos perguntar: – Seria então, o poema uma fantasia ou a produção de um fantasma? Ou então, o que  seria a imagem num poema?  E Bosi ( 1977) nos responderia que não seria apenas um ícone que se fixou na retina, nem um fantasma produzido na hora de um devaneio, mas e, sobretudo, uma palavra articulada e, por conseguinte – um código novo.

Neste conjunto, denominado poesia, além da palavra, há o ritmo, domínio muito bem descrito por  Paul Valery quando diz que “um poema começou em mim pela simples indicação de um ritmo que pouco a pouco deu um sentido a si mesmo. Essa produção que procedia de certo modo, da “forma” para o “fundo”, e acabava por exercitar o trabalho mais consciente a partir de uma estrutura vazia, aparentava-se, sem dúvida, com a preocupação que me trabalhava, durante alguns anos, de procurar as condições gerais de todo o pensamento, qualquer que fosse o seu conteúdo”.

Na relação entre a consciência, palavra, ritmo e o entendimento de uma verdade, aflora o poema. A compreensão desse processo de relação entre a palavra e a realidade vital faz perceber que a linguagem poética é a mais singular de todas as linguagens, mas no poema, o singular não é isolado, é o concreto, é o ser multiplamente determinado, multiplamente unido aos sentimentos e ao ritmo da experiência, multiplamente  também composto de conotações históricas e sociais ( BOSI, 1997)

Para finalizar, Manoel Bandeira diria: “ a poesia, fonte de alumbramentos, desloca-se de um fundo sem fundo da memória ou do inconsciente.  E Bossi complementaria: “ na poesia cumpre-se o presente sem margem de tempo, tal como o sentia Santo Agostinho: presente do passado, presente do futuro, presente do presente. A poesia dá voz a existência simultânea, aos tempos do tempo que ela invoca, evoca e provoca.

Maria helena Sleutjes
Fonte: Recanto das Letras

Fonte:
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