In Memorian: José Saramago

Se eu pudesse repetir minha infância, a repetiria exatamente como foi, com a pobreza, com o frio, pouca comida, com as moscas e os porcos, tudo aquilo.
José Saramago (1922 – 2010)
Owl City – Fireflies (tradução)
[Vagalumes]
Você não acreditaria em seus olhos
Se dez milhões de vagalumes
Acendessem o mundo
Quando eu caísse no sono
Porque eles enchem o ar livre
E deixam lágrimas em toda parte
Você pensaria que sou rude
Mas eu só iria ficar parado e olhar
Eu queria me fazer acreditar
Que a Terra gira devagar
É difícil dizer que eu preferiria estar acordado
quando estou adormecido
Pois nada é o que parece
Pois eu ganharia mil abraços
De dez mil vagalumes
Quando eles fossem tentar me ensinar a dançar
Um foxtrote na minha cabeça
Um concurso de dança embaixo da minha cama
Um globo espelhado está pendurado por um fio
Retorno de um Anjo (7)
Já era de manhã, o sol começava a nascer. Saiu daquela casa como se já morasse ali há muito tempo… aquele seria o dia mais longo de sua vida. Seguiu caminhos que não conhecia, andou de ônibus, metrô, sabia que não podia parar. Corria, parecia que não podia perder tempo, e realmente não podia.
Percorreu cidades e, apesar de demonstrar estar muito cansado, continuava em seu caminho. Apressou o passo, viu que, apesar de ainda estar cedo, tudo estava escuro ao seu redor, parecia ter entrado em um novo mundo, um mundo sombrio. Lembrou do sonho da noite anterior, havia entendido o seu destino, sabia o que buscava.
Sombras o atacavam, conseguia desviar de todas elas. O chão afundava a medida que passava por ele, sua velocidade era incrível. De longe avistou o que pretendia, era um livro. Foi quando chegou próximo do livro e tentou pegá-lo, mas algo o empurrou para longe como se tivesse uma barreira ao redor do livro. Caiu no chão e ficou muito fraco depois daquilo. Levantou-se com dificuldades, reaproximou do livro, respirava fundo, seus pensamentos aceleravam, estava lembrando de toda a sua vida que havia esquecido. Olha para o cordão de seu pescoço, entendeu o pingente em forma de uma gota d’água. Seu corpo brilhava e, com todas as suas forças, abre os seus braços, fecha seus olhos e espalha uma grande luz por todo aquele lugar. As sombras desaparecem, tudo se acalma. Ele pega o livro e aquela luminosidade desaparece.
Viu que agora estava no meio de uma rua deserta, já era noite, mas não tinha tempo a perder, precisava desvendar o mistério daquele livro. Abriu a última página, pegou o pedaço de papel que havia guardado no bolso, era parte daquele livro, o livro que seu pai havia escrito. Sumiu dali em poucos segundos, mais uma vez corria, desapareceu entre as casas que ali havia.
Angra – Bleeding Heart
Mário de Andrade
Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi.
Retorno de um Anjo (6)
Voava bem próxima do sol, não conseguia ver sua sombra lá embaixo. Não sabia o que sentia naquele momento, tinha a sensação de estar sendo guiada a algum lugar. Foi quando um pedaço de papel cai do livro que segurava, quis pegar, seu corpo a impediu.
A lua aparece, a sensação estranha desaparece, consegue de volta todos os seus movimentos. Nesse momento suas asas param, deixa o livro sair de suas mãos, apenas cai sem poder fazer nada.
De longe ouve-se um barulho no rio e um grande clarão entre as árvores do lugar. Estava quase se afogando quando foi resgatada por um rapaz que se atirou na água. Estava escuro, foi levada até uma pequena casa naquela floresta e colocada em uma rede. Mal conseguia abrir os olhos, mas sentiu uma leveza em suas costas. Seu coração acelerou rapidamente, seus pensamentos aumentavam de intensidade, parecia que havia perdido todos os seus sonhos, foi quando “apagou”.
Um olhar sobre o valor da poesia na sociedade contemporânea

Se perguntarmos ao poeta Ferreira Gullar: – Poesia para quê? Certamente ele nos dirá: – Para tornar o mundo habitável. A poesia é uma expressão artística como o são a pintura, a escultura, a música, e outras, extremamente importante para estabelecer esta conexão homem-mundo. Seria também uma forma de “namoro”, uma espécie de romance, do homem consigo mesmo, com os outros, com o mundo e com tudo o que está à sua volta. Algo que, contempla os sentimentos e as emoções a partir de si mesmo, mas caminha na direção do que está fora para elaborar uma síntese que reintegra formas variadas de ver e sentir e re-significar a vida.
Cada vez mais o homem contemporâneo se lança à construção de um mundo de funções e consumo onde tudo já está pré-estabelecido. Zaidsznajder (1994) afirma que o homem pós-moderno se distancia de si mesmo, à medida que o mundo à sua volta se torna mais turbulento e sua vida mais fragmentada. Impulsionado pelas grandes transformações que ocorreram nos últimos 100 anos, o homem de hoje, orienta suas ações pelas duas grandes forças que regem a vida contemporânea: o estratégico e o tecnológico. Martin Heidegger, filósofo alemão, denuncia em toda a sua obra a grande inversão de valores no que se refere ao conceito sujeito e objeto. Segundo ele, na busca desenfreada de auto asseguramento, o homem diminui toda a profundidade do seu pensamento e foge da vitalidade criativa. Segundo Heidegger (1973), a história do homem contemporâneo é a história do esquecimento do ser e para re-encontrar o caminho de volta é preciso compreender que pensar se compõe com sentir, e assim:
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Affonso Romano de Sant’Anna
A poesia sensibiliza qualquer ser humano. É a fala da alma, do sentimento. E precisa ser cultivada.
Retorno de um Anjo (5)
A medida que a distância se tornava maior, a saudade aumentava sua tristeza. Fazia muito calor, já não sabia mais onde estava, sentiu-se perdido. Depois de horas andando sem descansar, resolve parar um pouco. Olhou para trás, a sua vida já não pertencia a mais nenhum lugar. Continuou andando, foi procurar algo para se alimentar com o pouco dinheiro que tinha.
Entrou em uma lanchonete, lanchou rapidamente e saiu. De repente vê uma imagem estranha a sua frente, do outro lado da rua. Estava meio embaçada, mas parecia olhar fixamente em sua direção. Esfregou os olhos, a imagem havia sumido, resolveu atravessar a rua só por curiosidade. Estava em um beco mal iluminado, andou até o fim, não havia saída. Foi quando olhou para cima e sentiu ser encoberto por sombras, não viu mais nada.
Estava deitado no chão. Levantou-se meio tonto, não sabia o que havia
acontecido. Viu um pequeno pedaço de papel no chão, resolveu pegar. “Do alto eu surgirei novamente…” era o que estava escrito. Não entendeu aquilo, guardou o pedaço de papel no bolso, pegou sua mochila e saiu dali. Já era noite, ficou admirado com o tempo que esteve apagado. Sua cabeça doía, não sabia onde passaria a noite, apenas andava pelas ruas escuras, pensava no que estava acontecendo. Parou perto de uma casa diferente das outras daquele lugar, não sabia como, mas tinha uma lembrança daquela casa em sua cabeça. Parecia vazia, o portão estava aberto. Estava tudo escuro, seria assustador, mas o seu pensamento o levou para dentro da casa, ali passaria a noite.
